Depois de 1930, o ano que delimita o final da Primeira República, como ficaram as escolas isoladas na Bahia?

Em Destaque: Foto da Escola mista do Cruzeiro do Mocó (Feira de Santana) na Revista do Ensino. Bahia. VOL. II, N. 4 e 5, nov., dez., jan. e fev de 1925.

Exposição Escolar maio 2025 – 2

Este post dá continuidade ao texto As escolas isoladas da Bahia, na Primeira República Exposição maio 2025 publicado em 25/05 que pode ser acessado através do link https://modosdefazer.org/as-escolas-isoladas-da-bahia-na-primeira-republica/

Observações do Delegado Antonio Bahia da Silva Araujo, em 1905, sobre as condições pedagógicas das escolas isoladas que inspecionava na cidade de Salvador.

Uma escola onde o professor atendia alunos de idades muito diferentes com diferentes níveis de aprendizagem, cujas características físicas dificultavam a adoção dos procedimentos pedagógicos usuais durante a Primeira República.Lembrar que pela lei N. 117 de de 24 de agosto de 1895, a escola elementar devia atender a alunos de 6 a 11 anos de idade.

“As classes continuam a funcionar em prédios impróprios. Os movimentos dos alunos dão-se em desordem, pois os comandos e manobras escolares são impossibilitados pela falta de espaço onde se desdobram as classes, quando chamadas a algum exercício ou de volta destes. Nenhum material, salvo algumas coleções, poucas, dadas como prêmio a alguns professores. As mobílias no geral em péssimo estado de conservação e asseio; raras mobílias novas, essas mesmas incompletas e defeituosas, como já tive ensejo de mostrar-vos. A todas faltam o mesão utilizável pela primeira linha de crianças e a última linha de bancos, onde se sentem os meninos que tenham de servir-se do último mesão.” (Araújo, 1905, p. 185).  

No mesmo ano Presciliano Leal, também delegado escolar, escrevia em seu relatório:

Apesar desta disposição legal [ que determinava o pagamento do aluguel por conta do estado], quase todas as escolas continuam a funcionar em casas que são alugadas pelo professor, quando não ficam encerradas em pequenas salas a ele sublocadas. Não raro se encontram escolas sem ar e sem luz suficientes, atestando contra as leis da pedagogia e da higiene, naturalmente por não poder o professor pagar uma casa em regulares condições para funcionar. […] Não me parece menos importante para chamar atenção de v. Exa. A falta ou deficiência de mobília nas escolas elementares, perturbando a marcha regular do ensino, sacrificando a saúde dos alunos e duplicando inutilmente os esforços dos professores. […] Não é raro encontrar-se, como eu tenho visto, durante minhas visitas às escolas desta circunscrição, alunos assentados em bancos sem carteira ou mesa, descansando o livro sobre as pernas e curvando-se sobre ele para estudar!” (Leal, 1905, p. 198- 202).  

Os relatórios dos Delegados Araújo e Leal estão anexos ao Relatório apresentado ao Conselho Municipal na sessão de 3 de Fevereiro de 1905 pelo Dr. Antonio Victorio de Araujo Falcão, Intendente do Município da Capital da Bahia.

Disponível em https://modosdefazer.org/documentos-historicos-no-acervo-do-gpec-edicao-comemorativa-do-aniversario-do-blog/

Escolas particulares de prestígio funcionavam em prédios com espaços físicos adequados ao ensino

Foi o caso do colégio misto, particular 8 de dezembro, criado no ano de 1885, que funcionava em um prédio localizado no Largo Dois de Julho (veja foto do prédio e do plano de estudos)

Prédio do Colégio 8 de dezembro.

Fonte: Revista RENASCENÇA. Bahia. Ano II, Num XIX, 30 de setembro de 1917.

Plano de estudos do Colégio 8 de dezembro no ano de 1905

Fonte: Almanak do Estado da Bahia. 1904-1905. Alexandre Borges dos Reis (org.)

E no interior do estado?

Pela Constituição baiana de 1891, os municípios tinham a competência de criar escolas, sem prejuízo da ação do governo estadual. Nem sempre a o governo estadual e municipal se fizeram presentes.

No interior do Estado a iniciativa particular contribuía para garantir a presença da escola, em regiões carentes da ação do governo, replicando o modelo de escola isolada.

A essa presença o professor Francisco de Sá Teles faz referências no texto intitulado a “Escola na Varanda da casa”

Entre 1924 e 1928, o professor frequentou o curso primário em escolas isoladas do interior, no município de Seabra-Bahia. Foi regente de escola isolada rural em Largo de Mundo Novo, no ano de 1937. No texto “A escola na varanda da casa”, no livro “Recordações de um Mestre escola“, rememora:

Gilberto Freyre escreveu em ” Casa Grande e Senzala”: “ As casas casas grandes tiveram quase sempre sala de aula, e muitas, até cafúas para o menino vadio que não soubesse a lição”.

Desse costume certamente veio o fato de, nas três primeiras décadas deste século e ainda hoje em escolas municipais, instalarem-se  escolas na varanda das casas, chamadas também sala de visitas. Aliás, o hábito veio do tempo do Império, como adiante veremos.

A escola de Ângelo Costa, como de Augusto Salles ou a do professor Geraldo, a que aludimos, funcionaram assim.

Ás vezes o professor morava na casa como hóspede do dono, sem nenhum ônus. Outras vezes ocupava a casa cedida ou locada pelo Estado, para a sua moradia, usando a varanda, quase sempre ampla como sala de aula. ( Sá Teles, 1989, p. 25)

O texto da legenda na foto do prédio, publicada na Revista do Ensino e colocada como Destaque na abertura desta página, é um indicativo da participação particular na oferta de prédios escolares. A legenda diz: “Construída, especialmente, pelo Farmacêutico Arthur Fróes da Motta para o funcionamento da escola local, na Fazenda do mesmo nome, de propriedade do referido cavalheiro

Documentos que tratam de questões relacionadas com o modelo de escola isolada.

Localizados no Arquivo Público do Estado da Bahia.

Depois de 1930, o ano que delimita o final da Primeira República, como ficaram as escolas isoladas na Bahia?

Apesar de algumas iniciativas dos governos estadual e municipais para aquisição e construção de prédios escolares, só a partir da segunda metade da década de 20 passou a haver um esforço mais consistente para reunir escolas e professores em um mesmo prédio. A Bahia entrava, então, na era das escolas reunidas.

Mesmo assim, o modelo de escola isolada esteve ainda muito presente na capital (em bairros afastados ou periféricos) de acordo com documentos localizados em pesquisa do GPEC. Quanto ao interior, principalmente na área rural , houve a permanência das escolas isoladas, apesar de propostas de agrupamento ou nuclearização.

Documentos do ano de 1947 e 1949 evidenciam a permanência do modelo de escola isolada, em Salvador.

Plantas localizadas no Arquivo Público do Estado da Bahia registram a existência de escolas isoladas, na cidade de Salvador. Indicam a realização de um levantamento oficial com o objetivo de conhecer aspectos físicos do prédio escolar. A iniciativa é um anúncio de que havia intenções de melhorar a rede física escolar. As plantas parecem ter sido desenhadas sob a responsabilidade das professoras das escolas que fizeram parte do levantamento.

Planta da Escola Presciliano Leal, datada de 1949, apresentando medidas e anotações relacionadas à estrutura do prédio.
Planta da Escola Vapor Baependi em Aratú, datada de 10 de novembro de 1947, mostrando a disposição dos cômodos, incluindo a sala de aula, sala de jantar e quarto.

Sobre o tema, veja uma pesquisa realizada em pleno século XXI, por Fernanda Lima Souza, mestranda do GESTEC: EDUCAÇÃO NAS ESCOLAS DO CAMPO: BASES PARA A CONSTRUÇÃO DE UMA ALTERNATIVA PARA MELHORAR A QUALIDADE DO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO NAS TURMAS MULTISSERIADAS DO MUNICÍPIO DE ITAPICURU-BA. Dissertação apresentada ao Mestrado Profissional Gestão e Tecnologia Aplicada (GESTEC) da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), em 2015.

Disponível em https://www.cdi.uneb.br/site/wp-content/uploads/2016/03/FERNANDA-LIMA-SOUZA.pdf

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