Em discussão -Texto provocação agosto 2022

Igreja da Penha no bairro da Ribeira, em Salvador, onde começou a história do Colégio Santa Bernadete. Foto disponível em: https://br.pinterest.com/pin/317503842459946884/ Acesso em 27/08/2022

VENDO O PASSADO COM O OLHAR DE HOJE: a experiência educacional do Colégio Santa Bernadete 1

DILZA MARIA ANDRADE ATTA2

Está tudo na memória. Mas a memória está em algum ponto do passado, ou está aqui agora, revestida de tudo porque passei, de tudo o que venho aprendendo desde então? É pouco, mas é o que me foi possível aprender. E é com esse instrumento pobre — a minha memória revestida dessas novas aprendizagens — que devo olhar para o passado. E é o mesmo passado? Daí achar difícil atender a solicitação dos organizadores deste Colóquio para que eu veja a inovação pedagógica realizada no Colégio Santa Bernadete, em Salvador, nos anos 1960, com os olhos de hoje. Por isso, e difícil também porque é como se eu tivesse um grande embora macio novelo nas mãos e para falar sobre ele é preciso ir tirando os fios, ir cortando-os para tirar outros e desses outros tirar mais outros, de tal ordem que já não haverá novelo. Serão fios soltos sem a continuidade, sem a integridade que os identifica. Mas vou tentar.

E o primeiro fio vai saindo para apresentar sumariamente o Colégio Santa Bernadete, um colégio que nasceu na Penha e foi depois para o Largo da Madragoa, sempre em Itapagipe, um bairro da Cidade Baixa, em Salvador. Era particular, confessional católico, misto até a 2ª série primária e feminino a partir daí, com internato e externato, com cerca de quinhentas alunas, mantendo curso primário, ginasial e pedagógico, nos quais algumas religiosas ensinavam, ao lado de um número maior de professores, à época,  ditos leigos, em contraposição às religiosas,  e com muitas professoras  ex-alunas do Colégio e moradoras no mesmo bairro. Aí se estabeleceu, em 1961, uma assim dita experiência pedagógica, uma inovação educacional que se convencionou chamar “reforma” e que se desenvolveu até 1967. Esta, a inovação de que vamos tratar. Mas lá adiante.

Eu era uma daquelas ex-alunas que me tornara professora e que morava no mesmo bairro. E este é outro fio. Estudei lá de 1942 a 1948, portanto da 1ª série de ginásio, hoje 5ª série, até o 3º ano pedagógico. Lá, me fiz professora e, no ano seguinte, 1949, trabalhei com o 2º primário, lá mesmo, de onde saí somente em 1967, um ano antes de o colégio fechar, depois de ter ensinado Português no ginásio, Literatura Brasileira, no Pedagógico, enquanto, escolhida pelo grupo de professores (com dois colegas, em momentos diversos — o Prof. Antônio Gama Vieira e o Prof. nem Ney Meira), exercia a coordenação pedagógica da inovação educacional, da “ reforma”.

A apresentação do colégio, e de mim mesma nessa relação com ele, me parece indispensável  para a compreensão do que se segue. Eu cresci lá, enquanto também ele crescia. E olhando para trás, com os olhos de hoje, o que mais me chama atenção é essa questão do crescimento. Costuma-se dizer, ironicamente, que a instituição escola não muda. Ali, isso não era verdade.

Aquele colégio, como instituição, mudou, aprendeu. Aliás, é melhor incluir um gerúndio, para que se perceba o movimento que eu ainda sinto, quando rememoro. Aquele colégio, como instituição, esteve sempre aprendendo. Mas o que eu entendo, neste caso, por aprender? Aprender, aqui, é ir saindo de uma história de gestão administrativa e pedagógica tradicional e autoritária para a convivência com características democráticas. E eu me lembro de Antônio Bolívar (1997):

[…] o estabelecimento de ensino, para além de um lugar de trabalho, só será unidade de formação e inovação se, no seu seio, houver lugar para uma aprendizagem institucional ou organizativa. Quer  isto dizer que o contexto e as relações de trabalho ensinam e  que a organização, como conjunto, aprende a partir de sua própria história e memória como instituição.

São os fios desse contexto e dessas relações de trabalho, indicados por Bolívar, que minha memória vai, agora, buscando, no novelo, para tentar encontrar, lá no passado, uma explicação para aquelas aprendizagens que, a época (1961), não se realizavam em outros colégios. Por quê?

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1O texto – provocação é a transcrição da parte introdutória do artigo” VENDO O PASSADO COM O OLHAR DE HOJE: a experiência educacional do Colégio Santa Bernadete ” de autoria da professora Dilza Maria Andrade Atta publicado no livro EDUCAÇÃO NA BAHIA: Memória, Registros, Testemunhos, uma produção do projeto Memória da Educação na Bahia com edição da EDUNEB, em 2005/2006

2Sobre a autora:

Dilza Maria Andrade Atta é uma professora de grande prestígio na Bahia. É autora de livros e textos. Para saber mais sobre Dilza Atta veja depoimentos no NoosferoUFBA, acessando os links:

Memória da educação na Bahia

Entrevista com a Prof. Dilza Atta

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