EP 2 da Exposição Escolar de nov/2023.
EM DESTAQUE: O Terreiro de Jesus no ano de 1858 em litografia do francês Philippe Benoist (1813-1881) localizada no Guia Geográfico Salvador Antiga disponível em: http://www.salvador-antiga.com/terreiro/colegio-antigo.htm . Acesso em 25/11/2023.
O texto que ora divulgamos dá continuidade ao tema Negros ilustres e sua formação em escolas da Bahia. O Episódio 2 da Exposição Escolar nov/2023 apresenta aspectos da trajetória de membros de uma mesma família com a intenção de destacar suas relações com a escola na Bahia. Maxwel (o pai), George e Cleonice (seus filhos) são os personagens do passado que estão presentes, hoje, em nossa Exposição Escolar. Como alunos, professores livres ou vinculados a uma instituição escolar, militantes políticos, profissionais de nível superior na área da advocacia e da saúde mantiveram relações com nossas escolas e nossa educação.
Maxwell Assumpção Alakija, o advogado e professor que se colocou contra a discriminação racial na Bahia.

Foto localizada em Santos, 2020, p. 120, incluída na página do Jornal A tarde de 17 de março de 1933 em que foi divulgada a notícia da morte de Maxwell Alakija.
A história de Maxwell Alakija foi contada na dissertação de mestrado de Sivaldo dos Reis Santos Como negro que sou”! A trajetória e militância de um africano na Bahia: Maxwell Assumpção Alakija (1871-1933) defendida em 2020.
Apoiado em fontes diversas, inclusive depoimentos de descendentes , Santos (2020) apresenta Maxwel como um testemunho das questões raciais existentes entre nós no primeiro período da República, uma vez que viveu na Bahia do ano de 1898 (data indicada por familiares para sua chegada em Salvdor) até 1933, ano de sua morte.
Descendente de uma família com importante presença em Lagos na Nigéria, Maxwell demonstrava orgulho de sua origem e valorizava sua identidade africana-iorubá como verificamos em dos seus textos transcrito por Santos (p.28):
Nasci na capital da colônia de Lagos, de pais brasileiros; conheço bem o berço onde fui embalado aos primeiros raios de um sol argênteo e cálido. Nela recebi a minha educação primária e parte secundária, hoje, porém, estou na Bahia, onde continuando a minha educação superior, recebi na sua Faculdade Livre de Direito, em 1903, o grau de Bacharel em Sciencias Jurídicas e Socieaes. (Ao transcrever o autor da dissertação preservou a grafia original)
Maxwell exerceu a advocacia e foi professor de inglês e francês. Era também um militante político lutando pela escolarização dos pobres e pela inclusão social das pessoas negras, em uma cidade marcada pelo racismo. Aproximou-se de diversos grupos sociais e participou ativamente de associações criadas para beneficiar pobres e negros da cidade de Salvador.
Suas cartas de protestos mereceram lugar especial na dissertação de Sivaldo.
Para protestar contra o presidente Epitácio Pessoa, em julho de 1920, diante da proibição de que pessoas negras fizessem parte da guarda de honra do rei Belga que visitava o Brasil, Maxwell escreveu:
Sr. presidente, mais justiça para os vossos irmãos porque são brazileiros e fizeram parte forte da guarda de honra que elegeu v.exa. Sua majestade o rei dos belgas não se sentirá offendido com a presença da guarda matizada, porque os negros têm visitado o seu paiz, onde já funcionou como secretário do interior um “negro” natural da Nigéria (Lagos) de nome Geraldo Samuel, de paes brazileiros, professor primário e da cor da noite. Durante a guerra europeia, sua majestade teve contacto direto com soldados e generaes negros, cuja bravura, delicadeza e lealdade não foram desconhecidos ao mundo. Basta de maos tratos sr. presidente! Somos também filhos de Deus. Queira nos bem! (Maxwell, 1920 citado por Santos, 2020, p.85).(Ao transcrever o autor da dissertação preservou a grafia original)
Em 1921, mais uma carta que também foi transcrita por Santos (p.91):
Presado e D.D colega. Sr. Director d´A Tarde. Saudações! Despertando hontem com o telegrama inserido nas colummas do vosso conceituado vespertino A Tarde, relativamente ao projecto inconstitucional e deshumano, apresentado á Câmara Federal pelo deputado Cincinato Braga sobre a proibição da imigração negra para o Brasil, não posso ficar mudo deante de semelhante ignominia, sem lançar daqui o meu protesto contra semelhante projecto que, a meu ver, syntetiza tão somente uma injúria atirada á face da população de um paiz, que desde o berço da sua civilização até a presente data outro elemento desenvolvedor da lavoura e das industrias não foi si não o elemento negro, grandemente arrebatado do regaço remanço de sua pátria pelos portugueses.(Ao transcrever o autor da dissertação preservou a grafia original)
Sua militância política em defesa do reconhecimento dos direitos dos negros em Salvador é apontada por diversos autores. Tales de Azevedo transcreve no seu livro As elites de cor – um estudo de ascensão social (1955) uma carta protesto de Maxwell contra a Escola de Aprendizes Marinheiros cujo comandante impedia o ingresso de pessoas de cor
A tese Como negro que sou”! A trajetória e militância de um africano na Bahia: Maxwell Assumpção Alakija (1871-1933) está disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/33189. Acesse aqui as Considerações finais no texto de Sivaldo dos Reis Santos.
E QUANTO À PRESENÇA DE MAXWELL EM ESCOLAS DA BAHIA ?
Apesar das referências a diversas atividades realizadas como professor e estimulador da alfabetização de negros e pobres, ainda há uma carência de informações sobre a atuação de Maxwell na área da educação. A partir de uma nota do Jornal A Tarde,transcrita na tese de Santos (p.119 -120), surge a hipótese da sua participação como professor junto ao Ginásio Carneiro Ribeiro, um conceituado estabelecimento de ensino daquela época . Vejam a nota:
A Tarde, 17/03/1933.
Nascido em Lagos, na África, o dr. Maxwell de Assumpção aqui se formou em direito, aqui lecionou a língua inglesa que falava corretamente e aqui viveu até hontem, num circulo de estima e de conceito. Sua morte é lastimada por quantos lhe conheciam as maneiras educadas. O enterramento será hoje á tarde no cemitério da Quinta dos Lázaros. O dr. Maxwell de Assumpção era casado com a dra. Ignez de Assumppção Alakija e deixa os seguintes filhos: Cleonice de Assumpção Alakija, George de Assumpção Alakija e Dalley Maxwell de Assumpção. O Ginásio Carneiro Ribeiro de onde era professor o dr. Maxwell Porphyrio da Assumpção suspendeu as aulas, conservando hasteada em funeral a respectiva bandeira durante 3 dias. (Ao transcrever o autor da dissertação preservou a grafia original)
São muitas as referências à membros da família Alakija em textos de diversos tipos. Veja, por exemplo as fotos disponíveis em https://www.picuki.com/tag/alakijadynasty de Maxwel (Porfirio Assumpção Alakija Maxwell) e de outros membros nigerianos da família Alakyja publicadas em #alakijadynasty Instagram Posts.
Cleonice e George, descendentes ilustres de Maxwell Alakija
Cleonice Assunção Alakija: uma das primeiras médicas negras de Salvador
Cleonice Assumpção Alakija é, sem sombra de dúvida, uma das personalidades negras mais , importantes para o estado da Bahia e, porque não dizer, do Brasil? Com apenas 21 anos de idade conseguiu seu título de doutora num contexto em que pouquíssimas mulheres negras conseguiam tal feito.
Essas são palavras de Sivaldo dos Reis Santos que continua tomando como objeto de pesquisa pessoas ilustres da família construída por Maxwell Alakija. Acesse aqui texto de SIVALDO SANTOS SOBRE CLEONICE
Em 1926, com apenas 16 anos de idade, Cleonice Assunção Alakija foi admitida na Faculdade de Medicina da Bahia ( FAMEB) completando seus estudos, em 1931, como registra uma notícia publicada pelo jornal A TARDE. Após a formatura, que ocorreu aos 21 anos de idade, tornou-se professora da FAMEB.
Em 1934, começou a atender em seu consultório particular situado inicialmente na rua Chile e , depois, no Relógio de São Pedro, na Avenida Sete de Setembro. Na época, as duas regiões concentravam o comércio e os serviços “nobres” oferecidos aos baianos. Lá estavam lojas de artigos finos e sofisticados, casas comerciais importantes, escritórios de profissionais ilustres, consultórios de médicos conceituados e os grandes hotéias da cidade (como o Palace Hotel, inaugurado em 1934, que hoje é o Fera Palace Hotel ).
Preservando a tradição da família, ela participou de movimentos voltados para beneficiar as classes mais desprovidade de recursos. Em 1930, fez parte da Sociedade Beneficência Acadêmica da Faculdade de Medicina, criada em 1872 por iniciativa dos estudantes com o objetivo de auxiliar a matrícula e a permanência na faculdade de alunos desprovidos de recursos.
Também participou da primeira Diretoria da Sociedade de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Bahia, fundada em 16 de junho de 1937. Mantinha-se assim, a tradição iniciada por Maxwell, seu pai, de voltar os olhos para diferentes classes da sociedade baiana.
Conheça um pouco dos locais de trabalho de Cleonice através das fotografias abaixo:

Rua Chile nos anos 30 vista da Praça Tomé de Souza. Disponível em: http://www.salvador-antiga.com/rua-chile/rua-chile-antiga.htm. Acesso em: 20 de novembro de 2023.

Rua Chile nos anos 30, em fotografia para postal de editor não identificado. Fonte: Guia Gotográfico. Salvador Antiga. Foto disponível em http://www.salvador-antiga.com/rua-chile/rua-chile.htm

Este é o antigo Largo de São Pedro, trecho da Avenida Sete de Setembro, em fotografia bastante retocada pelo editor Almeida & Irmão. Provavelmente entre 1920 a 1940. Foto localizada no Guia Geográfico. Salvador Antiga, disponível em:http://www.salvador-antiga.com/sao-pedro/avenida-sete.htm. Acesso em 26/11/20223.
George Alakija, filho de Maxwell, irmão de Cleonice.
Pioneiro da hipnose clínica na Bahia e um marco para a psiquiatria em nosso estado
No dia 15 de julho de 2021 o CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DA BAHIA (CREMEB) publicou uma notícia que traz em seu início o seguinte registro:
“O centenário de doutor George Alakija se configura como de relevância extraordinária pelos relevantes serviços prestados à psiquiatria baiana e brasileira, o que motivou a titulação de sócio honorário outorgada pela Associação Psiquiátrica da Bahia em 4 de abril de 2002, quando do cumprimento dos seus 55 anos de honrosa e ética prática profissional. O ato solene festejava o reconhecimento dos psiquiatras baianos ao seu ilustre colega, pelo seus logros intelectuais, científicos e artísticos, validando o desejo de criar o novo a partir do conhecimento da trajetória de um colega mais experiente”, diz Iordan Gurgel, médico psiquiatra, ex-presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia.
Faça um click no título do quadro abaixo para ler na íntegra a notícia publicada no CREMEB
George Alakija praticou a psiquiatria introduzindo práticas inovadoras, como a hipnose; escreveu artigos; publicou livros; representou o Brasil por designação do Ministério de Relações Exteriiores no Festival de Artes Negras de Lagos, na Nigéria; recebeu condecorações no Brasil e de país estrangeiro e muito mais… como deixam transparecer os escritos que tratam de sua ação profissional e de suas qualidades pessoais. Honrou, portanto, os princípios defendidos por seu pai, Maxwell Alakija.
Acesse o link para ler o artigo Hipnose de autoria de Gerge Alakija, publicado no Número 9 da Revista Sitientibus da Universidade Estadual de Feira de Santana. https://periodicos.uefs.br/index.php/sitientibus/article/view/10218/8477
No link Médicos Ilustres da Bahia e de Sergipe: 150- GEORGE DE ASSUNÇÃO ALAKIJA (GEORGE ALAKIJA) um texto destaca a atuação do médico no Sanatório Bahia, localizado na Lapinha, em Salvador, que teve sua história retratada por ele no livro cuja capa apresentamos abaixo.

Foto disponível em: https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-1377261912-a-casa-da-lapinhageorge-alakija102-pags-leia-descrico-_JM. Acesso em: 25 de novembro 2023.
Em texto postado por Mônica Bichara em com o título de George Alakija – Mestre da Hipnose recebe homenagens pelo centenário, Isabel Santos, a autora, introduz fotos e depoimentos dos quais damos abaixo uma pequena mostra:

No texto de Isabel Santos (2021) a legenda: Dr. George e “sua” Iná, em homenagem prestada por seis entidades médicas da Bahia, em 2002.
Depoimento de Amina Alakija, neta do Dr. George Alakija:
“Meu avô sempre foi o meu guru. Durante todo o momento juntos, ele nos passava ensinamentos sem que a gente percebesse que eram grandes lições de vida. Hoje, enxergo claramente isso. Estamos passando por momentos mundiais muito difíceis e vejo o quanto tenho cuidado da minha saúde mental e praticado o poder da palavra. Isso significa Dr. George Alakija e seus ensinamentos. Ao meu avô, meu muito obrigada e muitas saudades“.
Fotos e depoimento disponíveis em: https://pilhapuradejoaninha.blogspot.com/2021/07/isabel-santos-george-alakija-mestre-da.html . Acesso em:20 de novembro de 2023.
George Alakija foi aluno do Ginásio Carneiro Ribeiro
Consultando os documentos arquivados no acervo do nosso grupo de pesquisa, o GPEC, localizamos o BOLETIM DA LIGA DOS INSTITUTOS DE ENSINO PARTICULAR DO ESTADO DA BAHIA, DE MARÇO ABRIL DE 1932, ANO I, NUM 3.
O referido número consta de 30 páginas. Na página 14 está registrado que George Assumpção Alakija foi aprovado no Exame de Admissão para ingresso no Ginásio Carneiro Ribeiro. Na mesma relação encontra-se o nome de Fernando Ernesto Carneiro Ribeiro denotando que descendentes dos donos do estabelecimento também eram alunos do Ginásio. Acesse aqui CAPA E PÁGINA 14 DO BOLETIM DA LIGA DOS INSTITUTOS DE ENSINO PARTICULAR DO ESTADO DA BAHIA DE MARÇO ABRIL DE 1932 ANO I NUM 3
O Ginásio Carneiro Ribeiro estava situado na Ladeira da Soledade (Rua Augusto Guimarães), próximo da residência da família Alakija que, segundo Sivaldo dos Reis Santos, ficava na rua Siqueira Campos, no Barbalho. Ministrava o curso de Ginásio através do qual conferia o grau de Bacharel em Ciências e Letras o que tornava o aluno apto para pleitear o ingresso no ensino superior (Ver informações na imagem do diploma abaixo).

Diploma datado de 1936, expedido para aluna a quem foi conferido, em 1931, o grau de Bacharel em Ciências e Letras, após aprovação em todas as matérias do curso ginasial. Foto no acervo GPEC de documento localizado no Arquivo Público do Estado da Bahia.

Foto de Andréia Silva no texto Ladeira da Soledade continua interditada oito dias após desabamento publicado por G1 BA, em 03/05/2017. Disponivel em: https://g1.globo.com/bahia/noticia/apos-8-dias-escombros-nao-sao-retirados-e-ladeira-da-soledade-continua-interditada.ghtml. Acesso em: 19 de novembro de 2023.
A história do médico psiquiatra George Alakija contada por sua filha, Gicele Alakija.
Depois de conhecer aspectos da história do médico psiquiatra George Alakija contados por vários autores, é interessante conhecer a história contada por uma de suas filhas. Prepare-se, pois essa história será contada na perspectiva da militância profissional de Gicele Alakija, que é psicóloga e astróloga.
Aventure-se por um caminho que você talvez ainda não tenha trilhado…
Acompanhe a palestra transmitida através do vídeo abaixo e conheça uma nova possibilidade de explicar e interpretar trajetórias profissionais.
A palestrante faz uma análise da trajetória da vida de George Alakija com ênfase na relação entre os trânsitos astrológicos e os eventos significativos da sua existência. Gicele afirma que o vídeo pode ser acompanhado por qualquer pessoa, mesmo sem os conhecimentos de astrologia.
Marcadores do tempo na busca da missão de vida. Palestra realizada por Gicele Alakija em julho de 2021 veiculada no youtube em 26 de nov. de 2022. Disponível em: https://youtu.be/ZohE4SkcMX4?si=5iyP0bGnIIvJ1rys . Acesso em: 20 de novembro 2023.
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A organização do Episódio 2 (EP2) da Exposição Escolar novembro/2023 contou com a participação das editoras do Blog que buscaram apoio nos autores citados no corpo do texto e em fotografias de documentos localizados pelo GPEC em fontes diversas, também citadas no decorrer do relato.