EM DESTAQUE: Foto de alunos do Ginásio Carneiro Ribeiro em frente ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia no mês de maio de 1919. Disponível em: https://www.ighb.servclt.com.br/phl83/dadosexternos/arqimg/FOT.1731.jpg
Os registros sobre a presença dos conteúdos cívico e militares em nossas escolas neste texto do Blog Modos de Fazer Educação na Bahia foram motivados pela leitura da notícia Militarização avança nas escolas públicas da Bahia –Método de ensino dos Colégios da Polícia Militar (CPMs) já foi implantado em 98 escolas de 85 municípios baianos publicada em MEUS SERTÕES (https://meussertoes.com.br/) em maio de 2022 e atualizada em novembro de 2023.
Conteúdos cívicos e militares nas escolas da Bahia no advento da República

Companhia de guerra do Ginásio Carneiro Ribeiro: Salvador – Ba.. [ s. l..]: [ s. n.], Jul.1918. 1 fot. p&b..
Disponível em:
http://www.ighb.servclt.com.br/phl83/dadosexternos/arqimg/FOT.1336.j
Em 1891
REGIMENTO INTERNO PARA AS ESCOLAS PUBLICAS PRIMÁRIAS
Publicado como Ato de 7 de março de 1891
Ao tratar do conteúdo a ser ensinado nas escolas primárias o regimento prescreve:
As escolas primarias funcionarão em duas sessões diárias, uma das 8 ás 12 horas da manhã, e outra das 2 às 4 da tarde.
A ultima hora da sessão da manhã, e outra será reservada, nas escolas do sexo masculino, ao desenho e aos exercícios manuais, calistênicos e militares, e nas do sexo feminino, aos trabalho de agulha e prendas domésticas.
O ensino primário basear-se-á nas lições de coisas generalizadas a todas as disciplinas com adaptação racional a cada categoria de escola.
O ensino distribuído por todas as escolas ( infantil, primária elementar, primária mista, primária superior ,primária noturna) compreenderá:
a)escrita, b)leitura, c)gramática portuguesa, d)aritmética, e)desenho, f)geografia, g)história, h)ciências naturais, i)instrução moral e cívica, j)canto, k)trabalhos manuais, l)noções de higiene, m)noções de economia política, n)noções de direito pátrio constitucional, o)noções de anatomia, p)noções de fisiologia, q)latim, r)francês, s)prendas domésticas, t)exercícios calistênicos e militares.
No texto do regimento um quadro indica como deve ser feita a distribuição gradual dos conteúdos pelos três cursos da escola primária. Entre as matérias elencadas três estão mais vinculadas ao ensino de conteúdos cívico-militares.

Em 1895
REGULAMENTO DO ENSINO PRIMÁRIO DO ESTADO DA BAHIA
Publicado como Ato de 4 de outubro de 1895
Ao definir o fim das escolas públicas no item organização pedagógica a Reforma de 1895 indica de modo mais detalhado os objetivos da inclusão dos conteúdos cívicos- militares no programa de ensino. Em seu Artigo 99, prescreve:
O ensino nas escolas públicas deve visar um tríplice fim: a educação moral, intelectual e física dos alunos.
§ 1.º A educação física tem por objeto.
I Fortificar o corpo e firmar o temperamento;
II Dar agilidade, prontidão e segurança de movimentos, precisão e destreza de mãos.
Este fim se conseguirá por meio de:
a) Cuidados de higiene e asseio; b) Ginástica; c) Exercícios militares; d) Trabalhos manuais e agrícolas; e) Desenho e modelagem ;f) Prendas e economia doméstica.
No item intitulado PROGRAMA DE ENSINO DA ESCOLA ELEMENTAR os conteúdos cívicos e militares a serem ensinados estão assim especificados:
Educação moral e cívica
Curso elementar: Deveres para com a família, com o mestre e os seus semelhantes.
Curso médio: Direitos dos cidadãos.
Curso superior: Direitos e deveres dos cidadãos.
História
Curso elementar: Biografias dos mais distintos cidadãos brasileiros e particularmente baianos.
Curso médio: Noções sumárias sobre a história da Bahia.
Curso superior: Noções sumárias sobre a história do Brasil.
Ginástica
Curso elementar: Exercícios de corpo livre; marchas, movimentos parciais e combinados, carreira, salto.
Curso médio: Continuação dos exercícios precedentes, e exercícios com aparelhos: corda elástica, massas, halteres.
Curso superior: Continuação dos exercícios precedentes, e mais o emprego das barras esféricas e das paralelas.
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Ao detalhar as prescrições para o Ginásio da Bahia, o texto legal do ano de 1895 indica:
Haverá ainda no Ginásio, além dos lentes destas cadeiras, os seguintes professores das aulas de Desenho; Música; Ginástica, esgrima, natação e exercícios militares.
Daí a presença de pelotões e de uniformes escolares confeccionados no padrão das vestes militares para alunos que frequentavam o ginásio público (Ginásio da Bahia) e as escolas particulares que também ministravam o ensino secundário.

Grupo de alunos do Colégio D. Pedro II situado ao Corredor da Vitória. Foto na Revista Renascença Ano II, Num XIX, de 30 de setembro de 1917.
Para ler a notícia publicada na Revista Renascença acesse o PDF Colégio Pedro II
EM RESUMO
Análises do currículo formal, do currículo real e do cotidiano da escola da Primeira República evidenciam que há uma relação entre o que ocorre na escola e os valores dominantes na sociedade.
Na escola do início da República da Bahia os conteúdos militares estavam voltados para a educação física e tomavam a forma de exercícios e treinos complementando a formação moral e intelectual dos alunos.
Os conteúdos propriamente cívicos eram ensinados através das matérias – Instrução Moral e Cívica e História – e através das relações cotidianas que se estabeleciam na escola presididas e estimuladas pelo MESTRE, que tinha autoridade soberana no interior da sala de aula.
Nas escolas com curso de ginásio ou equivalentes era costume contratar instrutores para dirigir os exercícios ginásticos e militares. Tratava-se de realizar uma ação que não invadia a escola cujas diretrizes, normas pedagógicas e disciplinares estavam aos cuidados dos seus diretores e professores.
As escolas primárias tinham um único professor e a ele cabia a responsabilidade da formação moral e cívica através do ensino formal e informal dos diversos conteúdos ministrados e da veiculação de de normas de conduta e disciplinares das quais ele era o único responsável. Nessas escolas geralmente cabia ao próprio professor conduzir os exercícios de ginástica e os militares.
Vejam a fala, em relatório do ano de 1899, do Diretor da Escola Normal, então denominada de Instituto Normal:
O professor Argemiro Plácido Cavalcanti, além da educação intelectual e moral que vantajosamente dá aos seus alunos, cuida também da educação física, dirigindo-os em exercícios calistênicos e militares.
Julgando indispensáveis os exercícios calistênicos às escolas anexas do sexo feminino, convidei o professor de ginástica do Instituto a dirigir estes trabalhos, que tiveram começo em julho, tirando deles os alunos grande proveito.
Vejo nas festas escolares um meio de emulação para os alunos; por isso, reunindo em 5 de agosto todos os alunos das escolas anexas do Instituto, organizei, com assistência de muitos professores e de todo o corpo docente, uma pequena festa escolar, executando os alunos cânticos patrióticos apropriados e também exercícios calistênicos e militares. (Carracosa, Dr. Pedro da Luz, em relatório de março de 1899 dirigido ao Inspetor Geral do Ensino, Satyro de Oliveira Dias )
E no relatório do ano seguinte, de 1900, o Diretor informa:
O professor da escola elementar, organizou um batalhão infantil, como meio de exercitar nas crianças o gosto pelos exercícios militares, hoje tão necessários à educação.
Tem sido unânimes e sinceras as manifestações de agrado com que o público aplaude esse batalhão, elogiando todos a disciplina que ele revela.(Carracosa, Dr. Pedro da Luz, em relatório de março de 1900 dirigido ao Inspetor Geral do Ensino, Manoel Devoto. )
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Afinal
O que são, hoje, os conteúdos cívicos e militares ensinados nas escolas da Bahia ?
As mais recentes discussões sobre a presença dos conteúdos cívico e militares nas escolas alertam para o constante aumento do número de escolas subordinadas ao modelo cívico-militar. Os que estão fora delas conhecem pouco sobre o seu cotidiano, as suas normas e regulamentos. Circulam poucas informações oficiais sobre essas escolas. Para preencher o vazio e conhecer as questões em torno da militarização das escolas apresentamos abaixo alguns estudos e textos.

Alunos formados na Escola Municipal Professora Maria José dos Santos Lima, em Piripiranga, conveniada ao Sistema do Colégio da Polícia Militar (Foto: Prefeitura de Piripiranga / Divulgação 10/05/2019)
No texto Militarização avança nas escolas públicas da Bahia resultado de uma série de reportagens financiadas pelo Edital de Jornalismo de Educação, uma iniciativa da Jeduca e do Itaú Social, os editores, Linda Gomes e Paulo Oliviera, afirmam:
O Método de ensino dos Colégios da Polícia Militar (CPMs) já foi implantado em 98 escolas de 85 municípios baianos.
E mais: Os policiais também criaram a matéria Metodologia Disciplinar de Ensino (MDE), que inclui instrução militar e conteúdo semelhante ao de Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), ministrada por PMs da reserva remunerada que integram a equipe disciplinar de cada escola.
O texto foi originalmente publicado por Meus Sertões | ODS 4 em maio de 2022 e atualizado em 30 de novembro de 2023.
Leia mais em https://meussertoes.com.br/2022/05/15/16940/ e conheça a série de reportagens produzidas sobre o tema.
Para saber mais sobre os editores acesse https://projetocolabora.com.br/quem-somos
Veja mapa publicado no texto editado por Linda Gomes e Paulo Oliveira:
Na edição1313 da Carta Capital, lemos:
O que muitos não se dão conta é que a presença de agentes policiais na organização escolar contamina as bases do ambiente educacional com outro tipo de cultura, com outros valores, na contramão de tudo o que se deseja e se espera de uma educação emancipatória para a cidadania contemporânea.
PARA SABER MAIS, SAIBA QUE O TRECHO ACIMA FOI EXTRAIDO DE Escola não é quartel: Cumprir ordens, obedecer de forma cega, vai na contramão das exigências da vida moderna publicado em CARTA CAPITAL por CESAR CALLEGARI E CLARA CECCHINI, em 29.05.2024 16H33, disponível em https://www.cartacapital.com.br/carta-capital/escola-nao-e-quartel/
Leia o texto
Continência, uniforme completo, sem namoro e piercing: saiba como é a rotina de escolas cívico-militares
Você sabe o que é Felicidade Interna Bruta (FIB)

Foto do Butão em Laya. Assembleia antes de começar a aula. Disponível em: https://www.mochilaoadois.com.br/fotos-do-butao/
Hoje, no tempo da selfie, enquanto discutimos sobre a militarização de nossas escolas, um país desconhecido pela maioria dos brasileiros introduz o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) no seu sistema educacional.
Sob o título Palestrante do Butão abre 1º Congresso da Felicidade de Brasília o Portal Metrópole publicou matéria de divulgação do evento que seria realizado em agosto 2024 com destaque para a presença do ex-ministro Thakur S. Powdyel, conhecido globalmente por introduzir o conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) no sistema educacional do Butão.
Veja trechos da matéria publicada em 19/07/2024.
Conhecido como a “Joia dos Himalaias”, o país de origem do palestrante internacional do congresso, o Butão, é inspiração global com a implementação do conceito de Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), criado nos anos 1970 pelo rei Jigme Singya Wangchuck e implementado em 2008.
O índice considera o progresso da nação baseado não apenas no crescimento econômico, mas também na conservação do meio ambiente, na preservação da cultura e na promoção da boa governança.
Dessa forma, o FIB harmoniza esses pilares no desenvolvimento, e atentando para nove domínios essenciais para a felicidade e bem-estar dos cidadãos. São eles:
- bem-estar psicológico
- padrão de vida
- saúde
- educação
- uso do tempo
- diversidade cultural e resiliência
- governança
- vitalidade comunitária
- equilíbrio ecológico
Esses domínios são medidos por meio de 33 índices e sub-índices, fornecendo uma visão detalhada do estado de bem-estar dos cidadãos.
O professor e ex-ministro Thakur S. Powdyel desempenhou um papel crucial na concretização da iniciativa.

Em 2009, introduziu no sistema educacional butanês a estratégia Educating for Gross National Happiness, que busca aprimorar a educação dos alunos para além do intelecto, abrangendo também os elementos natural, social, cultural, intelectual, acadêmico, estético, espiritual e moral.
O educador também é autor de um livro sobre o assunto, publicado em 2020, intitulado Minha Escola Verde: Um Esboço.
Texto disponível em:https://www.metropoles.com/conteudo-especial/congresso-da-felicidade
Conheça mais sobre o FIB, índice de FELICIDADE INTERNA BRUTA e sobre o BUTÃO:
LEIA:
O exemplo do Butão por Isaac Roitman em 27/01/2023 no UNB NOTÍCIAS. Disponível em https://noticias.unb.br/artigos-main/6276-o-exemplo-do-butao(Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília e membro titular de Academia Brasileira de Ciências
Butão, a terra da felicidade por Giuliana Preziosi para a Revista Plurale. Disponível em https://www.giulianapreziosi.com.br/index.php/em-pauta/item/30-butao-a-terra-da-felicidade
Felicidade Interna Bruta como política pública: o caso de Butão por Camilla Ghisleni publicado no Arch Daily em 22 de Janeiro de 2024. Disponível https://www.archdaily.com.br/br/1012337/felicidade-interna-bruta-como-politica-publica-o-caso-de-butao
Butão – Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Disponível em https://rsf.org/pt-br/pais/but%C3%A3o .Acesso em 14/09/2024
O importante é ser feliz Sriram Balasubramanian e Paul Cashin. Publicado no Blog do FMI Fundo Monetário Internacional. Disponível em: https://www.imf.org/pt/Blogs/Articles/2019/02/22/blog-dont-worry-be-happy
Alguns dados demográficos do Butão

População
Habitantes: 787.424
População por km²: 20,51
Esperança de vida homens: 70,6 anos
Expectativa de vida mulheres: 74,2 anos
Taxa de nascimento: 12,5 ‰
Taxa de mortalidade: 6,4 ‰
Homens/Mulheres:52,9% : 47,1%
Fonte: Dados Mundiais.com Disponível em https://www.dadosmundiais.com/asia/butao/index.php

Vila de Gangtey no Butão. Foto no texto Fotos do Butão: Uma Jornada Pelo País postado por Wagner Nogueira, 05/11/2019. Disponível em https://www.mochilaoadois.com.br/fotos-do-butao/