O tempo passa e as “boas memórias” do São João em Itapuã permanecem.

Em Destaque: A Praça Dorival Caymmi em Itapuã em torno dos anos 40/50 do século XX, vendo-se a igreja de Nossa Senhora da Conceição fundada por pescadores, no século 17, por volta de 1625. Inicialmente de palha, em 1646 foi erguida em alvenaria. Foto no Guia Fotográfico Salvador Bahia.

Disponível em: https://www.bahia-turismo.com/salvador/itapua/antigas.htm

Hoje, no início do mês de julho, o Blog Modos de Fazer Educação na Bahia reproduz uma crônica de autoria de Carlinhos Santos da Silva postada no grupo de WhatsApp  do Centro de Referência (CRMEMO) do Projeto Memória da Educação na Bahia , o PROMEBA, no dia 22/06/2025.

Ao rememorar as festas Juninas no famoso bairro de Itapuã, Carlinhos desperta em nós, soteropolitanos das antigas, a saudade dos tempos vividos nos bairros da cidade de Salvador, quando as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro assumiam um caráter familiar e comunitário.

Para complementar a crônica trazemos algumas imagens de Itapuã em tempos de selfie.

“SAO JOAO, ACENDE UMA FOGUEIRA EM NOSSA TRADIÇÃO”

Por Carlinhos Santos da Silva  em 21 de junho de 2025 

“Acorda ,João!!!!  Era assim que as pessoas costumavam “anunciar” o  São João aqui em Itapuã. Era um tempo bom. O tempo do areal. Sim, aqui no “morro” era tudo areia, por onde andávamos . Nessa época, sem asfalto ou estradas, era mais fácil organizar as festas e nesse período os moradores construíram um caramanchão e o enfeitavam bem a caráter, assim as noites de forró estavam garantidas, bem  como as comidas e bebidas  típicas   compartilhadas pelos participantes. Era uma das poucas lembranças do período.  Balões, fogos e brincadeiras e milho assado  ao pé da fogueira foram imagens guardadas no nosso imaginário e jamais esquecidas. Porém , o tempo passou e muita coisa mudou. De novo, apenas  o espírito junino e pouco do que se recordar. Desta forma a festa junina tem hoje, apenas o caráter de se reservar  os “dias santos”, como se diz lá em casa e pouco a se realizar.

Não posso dizer que a modernidade acabou com  os festejos juninos, mas são outros valores que se percebem nos dias atuais. Como ja comentei anteriormente, os/as caipiras foram trocadas por uma roupa estilosa que nada lembra os/as matutas, as músicas sequer fazer analogia aos santos, que dirá o velho e tradicional licor de jenipapo, hoje  modificado com outras iguarias, até licor gourmet ja existe. Os tempos mudaram. Não quero com isso ser pessimista, mas a verdade está ai pra todo mundo ver. Já tive oportunidade de viver esta festa em alguns interiores e o que vi e lembro é uma verdadeira festa, com pertencimento e tudo que o período pode oferecer e realizar. Quem lê e entende de São João  sabe do que estou comentando e assim acredito que outras contribuições possam surgir a partir daqui, afinal eu , atualmente, estou lidando com a memória e assunto tal como este é um “prato cheio”.

A verdade é que a cidade está “literalmente” vazia. Muita gente partiu em viagem  pra “encontrar o São João” e mais ainda, sendo ela uma festa tradicional da região Nordeste, o turismo junino foi tão”vendido”, que ja se vê em toda a Bahia um grande número de pessoas e até familias a se hospedarem em qualquer lugar, já que a capacidade de lotação dos  hotéis  está superada, para viver esta experiência. Assim, as prefeituras apostam em atrações nacionais pra aferir lucros junto aos grandes empresários que se colocam a serviço da alegria  de ‘vender grandes espetáculos a preços “das estrelas”.Em outras cidades ,de pequeno porte, ainda se pode curtir o “São João pé- de- serra. E desta forma o  São João  “não dorme”.

O caráter social da festa todos devem lembrar. Por ser uma festa pagã ou popular, foi “adotada”  pela igreja católica ao longo dos tempos, por se tratar de uma comemoração  na qual se celebrava a memória de santos juninos ou joaninos, pelo fato de ser em junho ( além de São João, tem também no mesmo mês, Santo Antonio e São Pedro). Também é importante falar que a festa de São João é uma tradição introduzida pelos colonizadores portugueses e com o passar dos tempos, foi adaptada aos costumes “brasileiros” devido às influências indígenas e africanas. Assim,a quadrilha,o casamento na roça,  as comidas típicas, as roupas,  as brincadeiras entre outros aspectos, aparecem de diversas formas em várias localidades da região Nordeste , de acordo com o costume local, no entanto  tem a simbologia católica da influência portuguesa como fundamento histórico,  fazendo assim parte  do calendário litúrgico da cultura brasileira.

A fogueira é um capitulo à parte nesta narrativa. Historicamente era associada à chegada  de João Batista, antecessor de jesus Cristo, que ao nascer foi anunciado atraves desse sinal. Mais também era uma forma de “simbolizar  a proteção contra os maus espíritos”. Ela, segundo as pesquisas realizadas,  tinha sua apresentação adequada   ao período junino:  “a quadrada é de Santo Antônio; a redonda de São João; e a triangular de São Pedro”; Além disso, no contexto da resistência africana quanto à preservação de sua cultura, a fogueira faz a associação ao Orixá Xangô, o Deus do fogo, e por isso há celebrações realizadas nos terreiros de Candomblé durante o mês de junho.É a representação do “ sincretismo santológico e religioso baiano, relacionando crenças e divindades da Igreja Católica e de religiões de matriz africana”(Moraes e Vilas Boas. agosto 2022)

Por tudo isso e por muito mais, ainda se pode celebrar os festejos juninos de uma forma familiar, bem diferente dos tempos antigos, mas ainda com os requintes de uma festa caseira, ou como aqui no morro,  durante algum tempo em que montava-se uma “barreira” e saindo de casa em casa,  ia perguntando “São João passou por aqui”??? …os donos da casa respondiam que sim e  ofereciam as iguarias disponíveis ou ainda  cerveja, sarapatel, xinxim , os licores e faziam um pequeno forró. Coisas dos bons  tempos  que não voltam mais.

E vivam bem o São João do jeito e da forma que se puder fazer ou querer.

Nota do autor: a imagem “representa” o São João “das antigas”)

Sobre Carlinhos Santos da Silva

Professor de Língua Portuguesa, ama Itapuã  está envolvido em movimentos de  preservação da cultura local. Membro do PROJETO MEMÓRIA DA EDUCAÇÃO NA BAHIA-PROMEBA atuando no Centro de Referência e Memória da Educação na Bahia (CRMEMO)

Endereços de Carlinhos em redes sociais:

https://www.instagram.com/carlinhossantosda/?api=1

https://www.facebook.com/carlinhos.santosdasilva

UM POUCO SOBRE ITAPUÃ no tempo da selfie:

Você já ouviu falar nas Ganhadeiras de Itapuã?

Um grupo dedicado a preservar tradições que foi criado em homenagem às mulheres que antigamente, faziam “ lavagem de ganho” (lavando roupas) para o sustento da família. O grupo ganhou visibilidade local e nacional.

Ganhadeiras de Itapuã. Foto no site Guia Fotográfico Salvador Bahia. Disponível em https://www.bahia-turismo.com/salvador/itapua/itapua.htm

Você Conhece o Museu virtual Casa de Ganho, que conta a história das  Ganhadeiras de Itapuã ?

ACESSE O LINK E FAÇA UMA VISITA

https://ganhadeirasdeitapua.org

Lagoa do Abaeté. Imagem disponível em https://ganhadeirasdeitapua.org/timeline/2005

Praça Vinicius de Morais próximo ao Faro de Itapuã. Vendo-se a escultura de Vinícius e a praia de Itapuã, ao fundo. Ao lado do poeta uma cadeira vazia convida a sentar e tirar fotos.

 Foto disponível em https://www.bahia-turismo.com/salvador/itapua/vinicius.htm

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