No pós-abolição: Um programa de instrução no jornal O Asteróide, de Cachoeira- Bahia.

EM DESTAQUE: Estação ferroviária e Asilo Filhos de Ana na Praça Manoel Vitorino, em Cachoeira, BA – Foto do ano de 1957. Fonte: IBGE. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ba/cachoeira/historico

SOBRE O JORNAL “O ASTERÓIDE”


O periódico abolicionista, O ASTERÓIDE, foi criado em setembro de 1887, na cidade de Cachoeira, Estado da Bahia. Seus números eram publicados nos dias de terça e sexta -feira. Os números consultados mostram um jornal com quatro páginas, sendo as duas últimas ocupadas por anúncios certamente vinculados a uma ajuda financeira para manutenção das edições.

A frase ORGAM DA PROPAGANDA ABOLICIONISTA estampada em seu primeiro número revela a principal característica do jornal que tinha entre os seus princípios:

Luz e mais luz para defender os escravos por amor da Pátria – e da Patria por amor do povo!

Luz e mais luz para emancipação dos escravos e, igualmente, para emancipação do povo […]

(O ASTERÓIDE, N 1, p.1, Cachoeira -Ba, 23 de setembro de 1887.

Página 1, do número 1, do Jornal O ASTERÓIDE, de 23 de setembro de 1887, localizada na Biblioteca Nacional, disponível em: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=717614&pasta=ano%20188&pesq=&pagfis=1

Como no número 42, publicado em 24 de fevereiro de 1888, as matérias do jornal sempre conclamavam para a luta pela abolição, denunciavam perseguições e crimes cometidos pelos senhores de escravos e divulgavam eventos voltados para a entrega de cartas de alforria de escravizados. As notícias publicadas denotam um lúcido acompanhamento das ações e movimentos para a abolição na cidade de Cachoeira, em sua vizinhança, no Estado e no país.

O jornal tinha participação intensa na vida da cidade, articulava-se com outros abolicionistas (como Cincinnato Franca e Manoel Tranquilino, constantemente citados) e promovia eventos de propaganda abolicionista, a exemplo do referido no número 61, publicado em 1 de maio de 1888.

CONFERÊNCIA ABOLICIONISTA.

  Realizou se no domingo próximo passado, no palacete “Lobo da Cunha”, o qual estava decentemente preparado, uma esplêndida conferência abolicionista, promovida pela Redação d’este jornal. conforme anunciamos.

  A multidão era imensa, a qual entusiasmava-se, erguendo palmas e vivas aos oradores, delirantemente.

  Representando a Redação do nosso jornal o sr. Manoel Antônio Nazareth, Olympio Ferreira da Silvae dr. Henrique Álvares dos Santos, fez o primeiro sentir ao nobre auditório que, naquele momento, tinha recebido uma carta do nosso ilustre chefe José T Pamponet, dirigida ao distinto presidente do  “Clube Carigé”, participando-lhe a fundação de um Clube Abolicionista  – Rio Branco – em São Félix.

Nota publicada nos números 61 e 62 do Jornal ASTERÓIDE datados, respectivamente, de 1 e 4 de maio de 1888.

Acesse os links e veja o que publicou O ASTERÓIDE nas vésperas da Abolição:Veja os números 61 e 62 do mês de maio https://acrobat.adobe.com/link/review?uri=urn:aaid:scds:US:261e1d9b-c8da-3128-9f63-3035f6e978e3

Veja também número 64 de 11 de maio 1888

SOBRE CACHOEIRA NOS ANOS 80 DO SÉCULO XIX

Souza (2010, P.32) revela que na década de 1880 estavam instaladas, em Cachoeira, cinco tipografias responsáaveis pela publicação de gazetas. O mesmo autor indica ainda que:

Segundo os professores Diogo de Andrade Vallasques e Luiz Xavier Leal, circulavam nesse tempo os periódicos O Americano, publicado três vezes por semana; A Ordem, que saía duas vezes na semana; O Tempo, distribuído duas vezes por semana; O Asteróide, de publicação bi-semanal e O Guarany, o único de circulação diária.

Para apontar o dinamismo da cidade e o seu grau de urbanização, no período da luta abolicionista travada pelo Jornal O ASTERÓIDE, Souza (2010, P.29) usou a tabela abaixo cujos registros demonstram a quantidade e diversidade dos estabelecimentos fabris, comerciais e de serviços existentes em Cachoeira.

Para saber mais acesse a dissertação VOZES DA ABOLIÇÃO: ESCRAVIDÃO E LIBERDADE NA IMPRENSA ABOLICIONISTA CACHOEIRANA (1887-1889) defendida em 2010 por Jacó dos Santos Souza . Disponível em https://saberaberto.uneb.br/server/api/core/bitstreams/9f75e7ae-a2b4-416e-bbe7-7aac6b5b7a44/content

O programa de instrução do jornal O ASTERÓIDE

Menos de um mês depois da proclamação da República, passado o tempo das grandes comemorações descritas, por exemplo, nos números 65 a 68 , o jornal procura reorientar seu curso. O texto O NOSSO PROGRAMA traz uma declaração de compromisso com a instrução, demonstrando que o tema estava na raiz da criação do periódico, em 1887. Vejam abaixo trechos da declaração.

O NOSSO PROGRAMA

Eis que surge hoje o “Asteroide” com o seu novo programa. O lutador não cansa: vitorioso e ofanoso [ orgulhoso?] pelo esplêndido triunfo que acaba de obter na  gloriosa campanha da abolição da  escravidão no império do Brasil, campanha esta em que ele lutou com todo denodo e patriotismo que jamais a inveja poderá lhe extorquir  essa verdade, ele poderia insarilhar suas armas e dizer – Cumpri meu dever, minha missão está completa.

Porém, não.

Ele é um filho amante de seu país; ele nasceu do patriotismo e para ele vive, […].

Iríamos longe se fôssemos  enumerar as reformas atualmente reclamadas pela nação, entre elas, porém, citamos a da instrução popular porque é d’essa que nos vamos ocupar; É d’essa que vamos constituir o nosso programa, sem, com isso descurarmos de outras medidas de interesse geral.

Transcrição de parte do texto NOSSO PROGRAMA publicado no ASTERÓIDE, na página 1 do número 69, em 2 de junho de 1888.

Depois de tratar dos males causados pela falta de instrução, o texto NOSSO PROGRAMA se encerra com a reafirmação dos princípios da luta pós-abolição:

A vista deste estado calamitoso é preciso luz e mais luz para espancar as trevas da ignorância; foram estas as palavras do nosso primeiro número, são as de hoje e serão as do futuro.

Temos, portanto, como continuação do nosso serviço ao país resolvido abrir aulas no edifício da nossa redação, para instruir-se a todos que delas se queiram utilizar, cujo programa publicaremos no número vindouro.

E no número 70 encontramos os estatutos da aula noturna a ser instalada na redação do jornal.

Estatutos da aula noturna.

Eis o programa para a escola noturna do <ASTERÓIDE>.

Artigo 1º. O ensino constará de primeiras letras e das matérias concernentes a língua portuguesa.

Artigo 2º. Aritmética e sistema métrico decimal.

Artigo 3º. As aulas serão frequentadas por alunos do sexo masculino da idade de 8 anos em diante. As aulas funcionarão das 7 às 9:00 da noite, nos dias úteis.

Artigo 4º As aulas funcionarão das 7 às 9 horas da noite, nos dias úteis.

Artigo 5º. Para admissão dos alunos precederá uma matrícula, que constará do seguinte: idade, estado, nacionalidade, profissão e residência.

§ 1º. Os menores de 8 a 15 anos serão admitidos a pedido por escrito ou verbal de seus pais ou tutores, sendo na sua apresentação por eles acompanhados.

§ 2º. Um regimento interno estabelecerá as obrigações disciplinares.

§ 3º. Cada aluno, no ato de sua matrícula, pagará [?], e semanalmente contribuirá com 120 rs. para as despesas da aula, como sejam: luz. água e asseio do estabelecimento escolar.

Artigo 6º. Quando os fundos da caixa permitirem, ou a filantropia de pessoas habilitadas, se queiram prestar a ensinar outras matérias como sejam: francez, desenho, geografia, etc. será oportunamente anunciado por este jornal, o novo programa.

§ Unico. As aulas abrir-se-ão no dia primeiro de julho vindouro, estando as matrículas abertas desde já.

Fonte: Jornal O ASTERÓIDE, N 70, Cachoeira-Bahia, 6 de junho de 1888.

Veja o PDF da página onde se encontra o Estatuto no número 70 do Jornal O ASTERÓIDE Numero 70 de 6 de junho 1888 m

Os estatutos trazem um programa mínimo correspondente ao ensino das primeiras letras como concebido na época e inclui uma possibilidade de ampliar no futuro com a introdução de novos conteúdos. Por trás da proposta estão os objetivos de:

– formar para a emancipação/libertação do domínio das classes dominantes

– e proporcionar uma melhor qualificação aos que gozavam do direito de votar.

Ao limitar a frequência aos alunos do sexo masculino, o jornal não se coloca contra a educação da mulher, tendo em vista o que publica sob o título EDUCAÇÃO E INSTRUÇÃO DO SEXO FEMININO:

Muito pouco apreço tem se ligado a educação e instrução do sexo feminino entre nós.

Nas classes democráticas, atento a falta de recenços [rescenceamentos, inventários?], a instrução é muito paralisada e imperfeita, pois não passa de primeiras letras incompletas, sendo para lastimar a grande quantidade de meninas que ficam completamente analfabetas(O ASTERÓIDE, p. 1, N 75, Cachoeira-Bahia, 22 de junho de 1888).

EM TEMPO:

NOTAS DECORRENTES DE TEXTOS DO ASTERÓIDE SOBRE AS COMEMORAÇÕES DO 12 DE MAIO DO ANO DE 1888.

A abolição foi muito comemorada em Cachoeira. O jornal publicou textos com descrição dos festejos nos números publicados entre os dias 19 e 31 de maio.

Abolicionista, citado várias vezes no ASTERÓIDE, o maestro Tranquilino Bastos executou hinos compostos por ele sobre a causa da libertação dos escravos nos festejos do dia 12 de maio, em Cachoeira. Entre as músicas tocadas por ele estava o dobrado Airosa Passeata.

Dobrado Airosa Passeata, em vídeo.

Vídeo localizado em Bandas de Música do Brasil Dobrados e Marchas (https://www.youtube.com/@bandasdemusicadobrasil), veiculado em 7 de nov. de 2021 Disponivel em: https://www.youtube.com/@bandasdemusicadobrasil

Hino Abolicionista, executado pela filarmônica Euterpe Ceciliana em diversas manifestações abolicionistas de Cachoeira.

Vídeo postado por Juvino Alves (https://www.youtube.com/@JuvinoAlves), veiculado em 16 de jan. de 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=l2Gx-9d7O8c&t=21s

Letra do Hino Abolicionista

Brasileiros, cantai liberdade!

Nossa pátria não quer mais escravos

Os grilhões vão quebrar-se num povo

De origem somente de bravos!

Em tudo inspira a santa voz da liberdade

No mar, na selva, na imensidade

E já no céu se vê escrito em letra d‟ouro

Redenção ao cativo! É seu tesouro!

O jugo do servilismo

Role em pedaços no chão

Pise altiva a liberdade!

Sobre o pó da escravidão

Abaixo a crença do velho atraso

Que dos cativos venceu-se o prazo

Quebrem-se os ferros da tirania

Sejamos todos livres um dia

Nosso trono há livre e altaneiro

Alvorar o liberto perdão

E Dom Pedro sentado no trono

Bradará liberdade à nação

Rompa-se o verso infamante

À custa de esforços mil

Deus não quer, nós não queremos

Que haja escravos no Brasil

De Rio Branco surgiu a ideia

De Souza Dantas a epopeia

Pedro Segundo, tua equidade

Seja a coroa da liberdade

Letra divulgada no texto MÚSICA, PROPAGANDA E ABOLICIONISMO (CACHOEIRA – BA) de Manuela Areias Costa publicado EM DOSSIÊ TEMÁTICO  DA REVISTA MANDUARISAWA – Revista Discente do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) Disponível em: https://periodicos.ufam.edu.br/index.php/manduarisawa/article/view/5551

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