EM DESTAQUE: Foto de uma prancha com foliões fantasiados desfilando na Micarême de Salvador. Revista Renascença, Bahia. Ano IX, NUM 125, publicada em 3 de maio de 1925. Localizada na BNDigital.
Disponível em https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=138614&pasta=ano%20192&pesq=&pagfis=5680
Na semana Santa e no domingo de Páscoa os alunos estavam liberados de assistir aulas
No início do período republicano o REGULAMENTO DA INSTRUCÇÃO PRIMARIA E SECUNDARIA DO ESTADO DA BAHIA-ACTO DE 18 DE AGOSTO DE 1890 estabelecia que nas escolas públicas seriam feriados os dias da semana santa até o Domingo de Páscoa, prescrição que foi mantida nos regulamentos posteriores.
Além das cerimônias religiosas celebradas no período da semana santa e no Domingo de Páscoa, que outros eventos marcavam o cenário onde viviam os alunos das escolas da cidade de Salvador? E como as crianças participavam desses eventos?
Você sabia que Salvador teve uma Mi-Carême?
Um Carnaval fora de época, no Sábado de Aleluia e no Domingo de Páscoa.

Na foto publicada na Revista Renacença. Bahia, Ano IV NUM 55, 30 de abril de 1920 a legenda diz: “O pessoal elegante que tomou parte no baile a fantasia do Cassino Espanhol, em a noite de domingo de Páscoa“. Apesar da baixa qualidade da fotografia, é possível identificar crianças e mascarados entre os “foliões”. Disponível em https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=138614&pasta=ano%20192&pesq=&pagfis=2390
Jornais do ano de 1914 e 1915 com grande número de notícias sobre o evento nos levaram a refletir sobre como os alunos das escolas primárias públicas e particulares viviam o período da Páscoa em Salvador.
As fotos e descrições nos textos dos jornais registram que a Mi-carême era uma festa que envolvia parte da elite de Salvador e, consequentemente, as crianças que dela faziam parte. O evento incluía: Concurso para escolha da rainha da festa; Bailes realizados em clubes da cidade; bailes que pessoas da sociedade promoviam em suas próprias casas para familiares, amigos e convidados ilustres; desfiles pelas principais avenidas da cidade em automóveis ou em luxuosos cargos alegóricos (pranchas) .
Nas fotos publicadas em revistas de anos posteriores a 1915 é possível ver crianças participando dos bailes e do corso, desfilando em automóveis.

Foto na revista Renascença Bahia, Ano IX, NUM 125, publicada em 3 de maio de 1925, vendo-se a presença de crianças na festa da Micarême realizada em importante clube da cidade, no Domingo de Páscoa. Entre os fotografados algumas pessoas fantasiadas. Disponível em:
https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=138614&pasta=ano%20192&pesq=&pagfis=5680
Mais fotos
Publicadas em 3 de maio de 1925, no número 125, do ano IX, da Revista Renascença.
A edição divulgou a Micarême realizada nos dias 11 e 12 de abril, Sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa.



A Micarême recebia ampla cobertura de jornais e Revistas.
Um indício da relevância social dos envolvidos na sua preparação e nos eventos festivos que ensejava.
Notícias sobre o evento eram presença diária em jornais localizados na BNDigital como a Gazeta de Notícias, O Imparcial e A Notícia que acompanhavam as diversas etapas da preparação e publicavam registros extensos sobre a realização da Micarême.




Durante os meses de fevereiro, março e início de abril A Notícia registrou momentos e decisões relativas à preparação da Micarême do ano de 1915 e publicou na primeira página, no dia 5 de abril (com continuação na página 3), extensa descrição do que foi a festa no ano de 1915.

O registro do jornal sobre a iluminação indica que os festejos ocorriam no centro da cidade, em área considerada nobre, distante das zonas de moradia popular. A redação do periódico escreve:
A iluminação
Atendendo a necessidade da cidade e acolhendo o pedido justo que “A Notícia” lhe fez, o senhor coronel Azevedo Fernandes, Intendente da capital, fez iluminar todo o trecho que vai de São Bento à Piedade, onde maior era o movimento do povo.
Em A Tarde Memória um texto publicado, em 05 de fevereiro de 2022, por Cleidiana Ramos, traz mais informações sobre como a Micarême, depois denominada de Micareta, era considerada a despedida oficial do Carnaval, em Salvador.
Veja texto em https://atarde.com.br/colunistas/atardememoria/salvador-realizava-micareta-como-a-despedida-oficial-do-carnaval-1186301
Jornais disponíveis na BNDigital https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/
A QUEIMA DO JUDAS EM SALVADOR.
Uma tradição com pouco destaque nos periódicos.
E que incluíam folguedos que atraíam a presença de crianças das escolas públicas.
Na edição 00129(1) de A NOTÍCIA, no ano de 1915, um breve registro de uma iniciativa do poder público:
A micarême começará, como se sabe, com a festa da Aleluia. E para que ela não fique, nesse dia, restrita aos bailes, haverá um grande atrativo: Um Judas na Praça Castro Alves. O pirotécnico já está encarregado de prepará-lo a capricho. Um Judas diplomata de chapéu de pelo e casaca.
Antes, porém, de ser queimado, esse Iscariotes fará sua passeata solene, pela cidade, de automóvel.
Na praça Castro Alves haverá a música, etc.
Na coluna notícia mundana, na edição 161, publicada em 3 de abril 1915, o Jornal A Notícia registrou a iniciativa popular:
Preparam-se para hoje à noite diversões populares e queimas de Judas nos seguintes pontos:
Sete Portas – No largo belamente ornamentado haverá quermesse, [ ?], leilão de prendas, tocando o corpo de polícia.
A nota prossegue indicando que também ocorreria queimas no Godinho, Largo do Tororó, Paranhos (Largo do Matatu), Garcia, Madragoa, Largo da Castanheda, Rua dos Artistas ( No Campo Santo).
Sobre os festejos organizados por moradores a nota ressalta os cuidados com a ornamentação, refere-se à realização de quermesses e à presença de música executada por integrantes da Polícia, do Corpo de Bombeiros ou grupo musicais. Contudo, pouco transmite sobre as características que marcavam o evento.
Porem, ao registrar a participação popular na organização dos festejos e indicar os locais de realização, sugere que as crianças que estudavam em escolas públicas poderiam estar presentes nos folguedos que antecediam o momento da queima do Judas.
Leo Prado no texto publicado em A Tarde (19/04/2025), construído a partir de conversas com pessoas que viveram essa tradição em tempos de outrora, na cidade de Salvador, informa:
Originalmente, a celebração foi criada para “vingar” o discípulo que traiu Cristo, mas ao longo do tempo, conquistou mais significados. Antes do momento final da queima do boneco, que acompanha explosões e pirotecnia, o evento também é marcado por brincadeiras infantis, como o pau de sebo, quebra pote ou cabo de guerra. A ocasião também serve como sátira ou crítica a personalidades públicas que desagradaram parte da população, tendo seus nomes e rostos representados na figura de Judas.
O autor traz a voz de Murilo, que rememora: “É uma tradição vinda de Portugal, que quando chega ao Brasil, passa a dialogar com a nossa cultura. Cada bairro de Salvador tinha a sua Queima de Judas. Era uma festividade religiosa, e ao mesmo tempo lúdica para as crianças. Além das cantigas e brincadeiras, tinha a leitura do Testamento, em que Judas endereçava presentes para os moradores de forma anedótica. Quem era careca, ganhava um pente, por exemplo, sempre em um tom de brincadeira”.
(Prado, no texto Símbolo da Semana Santa, malhação de Judas vem perdendo força na capital, disponível em https://atarde.com.br/bahia/simbolo-da-semana-santa-malhacao-de-judas-vem-perdendo-forca-na-capital-1314886)

Foto: Shirley Stolze / AG. A TARDE. No texto de Leo Prado Símbolo da Semana Santa, malhação de Judas vem perdendo força na capital publicado em A TARDE 19/04/2025, disponível em https://atarde.com.br/bahia/simbolo-da-semana-santa-malhacao-de-judas-vem-perdendo-forca-na-capital-1314886