A proposta de um professor baiano do passado pode iluminar a definição das políticas públicas para o próximo decênio?

Alipio Franca, professor da Escola Normal da Bahia divulgou a obra de Maria Montessori na Bahia. Foi sub-editor da Revista The Call of Education/L’Appel de L’Education, editada pela Dra. Montessori, em cujo número 7, do ano de 1925, publicou o texto abaixo com suas propostas para desenvolver a educação no Brasil.

América do Sul

Brasil.

A Academia Brasileira de Letras organizou um concurso com o  objetivo  de encontrar o melhor meio de desenvolver o ensino primário no Brasil. Entre o grande número de respostas havia uma de “Um Brasileiro” que, não escrevendo com o propósito de participar do concurso, e deixando-se guiar pelo interesse comum, respondeu com uma monografia onde indica os meios mais práticos  para resolver o grande problema do analfabetismo na República Brasileira. O Brasil é um país muito grande e muito rico, tendo mais  de oito milhões de quilômetros quadrados e uma população de trinta milhões de habitantes.

 Os meios mais práticos segundo ele são os seguintes:

  1. Em primeiro lugar – não poupar o orçamento do ministério da instrução pública;
  2. Multiplicar o número de escolas primárias de todos os gêneros: as escolas diurnas, as noturnas, as escolas para anormais, os cursos para adultos, as escolas de pleno ar etc, em todas as localidades do território do Brasil e em um número proporcional ao número de habitantes. Todas essas escolas não terão uma organização uniforme; é necessário adaptar ao meio e às condições locais. É necessário que ensinemos  de um modo atraente, que ali reine uma disciplina liberal e que sigamos em tudo  o sistema Montessori;
  3. Será decretado que o ensino primário seja obrigatório sobre todo o território e que haja um controle rigoroso da execução dessa lei;
  4. A unificação do ensino primário e do ensino normal em todos os Estados da República com o concurso do Governo da União, será também estabelecida, em obediência ao princípio: “O ensino vale o que valem os mestres”;
  5. A criação de um Conselho geral de instrução, na capital do país e um Conselho departamental em cada estado, dependente do primeiro;
  6. A criação de um serviço completo de estatística escolar.
  7. A criação de bolsas de estudo, bancos de poupança, sociedades de ajuda mútua para os escolares, de sopa [soupes ?],cantinas, enfermarias  escolares, colônias de férias e inspeção médica das escolas;
  8.  A fundação de bibliotecas populares, de bate papo, conversações, leituras e conferências públicas, de propaganda contra o analfabetismo, os vícios, o alcoolismo, etc.;
  9. A colaboração da mulher e da família brasileiras na obra da educação popular.
  10.  A criação de um fundo escolar  a fim de auxiliar o tesouro público em suas despesas com a instrução pública primária.

Nós devemos compreender que aquilo que deve ser dado a todos, é em primeiro lugar, a instrução elementar que deve ser obrigatória e gratuita e não devemos esquecer a instrução profissional, tão necessária socialmente quanto a instrução elementar. A organização de nosso ensino primário não é ainda a que deve ser, mas nós reconhecemos que sua reforma se impõe e está a acontecer; porque ele está a caminho da inovação.

Essas ideias acima foram recomendadas por nós  a Academia, sob o pseudônimo de “Um Brasileiro”, como capazes de resolver a questão de alto valor social, para um país, sob o regime democrático e  que operou grandes reformas políticas em cem anos de existência política, como nação independente.

Prof. Alípio Franca.

Bahia, Brasil.

Para saber mais sobre Alípio Franca leia o texto Para uma história da Educação Infantil na Bahia de Verônica de Jesus Brandão publicado no livro MODOS DE FAZER: CULTURA E MEMÓRIA DA ESCOLARIZAÇÃO PRIMÁRIA NA BAHIA, organizado por Elizabete Conceição Santana, Ladjane Alves Sousa e Verônica de Jesus Brandão, publicado em SALVADOR pela EDUFBA no ano de 2020. (Disponível na Biblioteca Central da Bahia e em outras bibliotecas de Salvador).

2 comentários em “A proposta de um professor baiano do passado pode iluminar a definição das políticas públicas para o próximo decênio?

  1. Maria Helena Franca Neves. 11 de agosto de 2025 — 00:26

    O descaso politico para com o sistema educacional é um alerta sobre as deficiencias da ausencia da pratica das Virtudes Éticas: Solidariedade Responsabilidade Liberdade, negligenciadas pela eleição de valores. São os valores que regem os sistemas politicos sedimentados nos planos politicos eleitoreiros. O problema da educação no Brasil repousa num conjunto de praticas que repousam há seculos sobre a esfera da injustica social. Alipio Franca, Cicinato Franca e o Conego Demétrio Franca são educadores que dedicaram a invocar a prática educacional em suas implicações de evolução social.

    1. Concordo plenamente com você, Helena.
      Muito grata pelo seu comentário. Quando lemos os escritos dos educadores que você cita, sentimos um impulso para fazer ecoar suas vozes. Eles expressaram seus pensamentos em uma realidade bem diferente. Entretanto, ainda estamos carentes de muitos dos princípios éticos e processos civilizatórios que eles defenderam.

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